A China decidiu domar a sua galinha dos ovos de ouro: no início de junho de 2026, a Administração Nacional de Rádio e Televisão do país (NRTA) lançou uma campanha especial de dois meses para "limpar" o setor de microdramas — as novelinhas verticais de episódios de 1 a 3 minutos que viraram febre mundial e têm no Brasil um de seus públicos mais apaixonados, em aplicativos como ReelShort e DramaBox. Na mira do governo chinês estão oito tipos de conteúdo, entre eles a ostentação de riqueza, o "culto ao dinheiro" e visões distorcidas de casamento — exatamente os ingredientes dos famosos enredos de "CEO dominador" que dominam o formato.
O que a China decidiu sobre os microdramas
Segundo o jornal estatal Global Times, a campanha da NRTA foi anunciada no começo de junho e vai durar dois meses, com foco em oito categorias de conteúdo considerado nocivo: material prejudicial a crianças, cenas de teor sexual sugestivo, culto ao dinheiro, ostentação de riqueza, valores distorcidos sobre casamento e relacionamentos, superstições e "resquícios feudais", violência e vingança, títulos sensacionalistas e violação de direitos autorais.
Terminada a campanha, o órgão promete institucionalizar a vigilância: monitoramento contínuo, inspeções de rotina e novas regras para o setor. Ou seja, não é uma ação pontual — é o novo normal da indústria chinesa de novelas verticais.
O recado não é novo. Já no fim de 2024, o regulador chinês havia publicado orientações pedindo que produtoras reduzissem a quantidade e melhorassem a qualidade dos microdramas, evitando inclusive o uso do termo "CEO dominador" como isca de título. O argumento oficial: tramas absurdas de bilionários poderiam "distorcer a percepção do público sobre os empresários chineses".
Por que os "doramas de CEO" viraram alvo
Quem já caiu na tentação de um microdrama conhece a fórmula: o bilionário arrogante (mas de bom coração), o casamento por contrato, a herdeira humilhada que dá a volta por cima, a vingança contra a sogra malvada. São histórias de consumo rápido, feitas para prender a atenção a cada minuto — e que movem uma montanha de dinheiro.
O tamanho do fenômeno explica a preocupação de Pequim. De acordo com o jornal South China Morning Post, o mercado chinês de microdramas saltou de menos de 1 bilhão de yuans em 2020 para cerca de 100 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 14 bilhões) em 2025 — mais do que a bilheteria de cinema do país. Estudos citados pela imprensa internacional estimam mais de 800 milhões de espectadores de microdramas na China, e a maioria paga para assistir ou desbloquear episódios.
E o Brasil com isso?
Muito. O Brasil é um dos mercados mais quentes do planeta para o formato:
- Na América Latina, os downloads dos 20 maiores aplicativos de novelas verticais cresceram cerca de 402% em 2025, segundo dados citados pelo Times Brasil/CNBC;
- O ReelShort somou 77 milhões de downloads em 2025, seguido de perto pelo DramaBox, com 74 milhões;
- Em maio de 2025, o ReelShort lançou a primeira novela vertical brasileira, "A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário", com Victor Sparapane e Jessika Alves — 68 episódios de até 2 minutos que, segundo a plataforma, passaram de 310 milhões de visualizações;
- A Globo entrou no jogo com "Tudo por uma Segunda Chance", disponível de graça nas redes sociais da emissora e no Globoplay, e planeja cerca de dez produções verticais até o fim de 2026;
- O TikTok lançou em janeiro de 2026 o PineDrama, aplicativo dedicado a novelas verticais disponível no Brasil e nos Estados Unidos.
Vale lembrar que os dois gigantes do formato têm raízes chinesas: o ReelShort pertence à Crazy Maple Studio, subsidiária do grupo chinês COL Digital Publishing, e o DramaBox opera a partir de Singapura, mas a propriedade intelectual do conteúdo fica com a chinesa DianZhong Technology. Por isso, o aperto regulatório em casa pode influenciar o que essas empresas produzem — e exportam.
O catálogo dos apps vai mudar por aqui?
No curto prazo, dificilmente o espectador brasileiro vai sentir o baque. A campanha da NRTA vale para o conteúdo que circula dentro da China, e boa parte do catálogo internacional do ReelShort e do DramaBox já é produzida fora do país, com elencos locais — caso das produções brasileiras e americanas.
No médio prazo, porém, a tendência é de mudança no DNA do gênero: menos ostentação escancarada e vingança sangrenta nas produções chinesas, e mais espaço para os polos de produção fora da China — o que pode ser uma ótima notícia para o Brasil, que já provou ter público, atores e fábrica de histórias para o formato. Enquanto Pequim disciplina seus CEOs dominadores, a novela vertical brasileira segue em plena expansão.




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